A Galatea encerra o calendário de 2024 ocupando seus dois espaços em São Paulo com exposições  que celebram a produção artística nordestina: Francisco Galeno: o Piauí é aqui — o Piauí não é aqui,  na Oscar Freire, e Bahia afrofuturista: Bauer Sá e Gilberto Filho, no espaço da Padre João Manuel.

A primeira, com abertura marcada para o dia 12 de novembro, na Oscar Freire, apresenta um  conjunto de 44 obras do artista Francisco Galeno, que ao longo de sua carreira explorou múltiplas  técnicas, como a pintura e escultura em madeira, além da ressignificação de objetos do cotidiano. E,  no dia 27 de novembro, na sede da Padre João Manuel, a Galeria traz de seu programa de Salvador.

A mostra Bahia afrofuturista: Bauer Sá e Gilberto Filho, com a iniciativa de inverter a dinâmica de itinerância de exposições do eixo sudestino, que normalmente partem de São Paulo para outras  regiões do Brasil.

Com texto crítico do pesquisador e curador Leno Veras, a primeira mostra apresenta trabalhos de Francisco Galeno (Parnaíba, PI, 1957). Produzindo há mais de quatro décadas, o artista construiu o  seu vocabulário visual a partir do cruzamento entre as vivências da sua infância no Delta do Parnaíba,  no Piauí, e o imaginário modernista de Brasília, para onde a sua família se mudou quando ele tinha 8  anos. Em 1969, instalaram-se em Brazlândia, cidade nos arredores da capital federal, lugar em que  Galeno se iniciou enquanto artista e mantém ateliê até hoje. Atualmente, ele vive e trabalha entre  Brazlândia e Parnaíba, onde também possui ateliê.

“Francisco Galeno: o Piauí é aqui – o Piauí não é aqui”, cortesia da Galatea.

As obras de Galeno conjugam tanto o interesse geométrico que aprendeu em Brasília, com as linhas  da arquitetura e as obras de mestres como Alfredo Volpi, Athos Bulcão e Rubem Valentim; quanto  um caráter lírico e lúdico ao trazer símbolos da sua infância, dos brinquedos e dos objetos que o  cercavam, como as bolas de gude e de futebol, os carretéis da sua mãe rendeira e os anzóis e a  madeira do seu pai pescador e marceneiro.

No texto crítico escrito para a exposição, o curador Leno Veras comenta:

“Para além de suas  temáticas figurativas, nas quais amalgamam-se objetos emergentes do desenho industrial — com  forte presença no cotidiano das populações interioranas, como a lamparina (que, em uma de suas  obras, desconstrói como que em um projeto técnico ao revés) — e artefatos concebidos por  manufatura familiar, como os brinquedos de madeira, suas representações arquitetônico urbanísticas também dão a ver que o pensamento construtivo é uma linha constante de sua  expressão plástica, encontrado, inclusive, na forma concreta que assumem seus assemblages ao  emular mobiliários familiares; tal qual gaveteiros de memórias, e histórias, que transbordam de seu  território originário para um novo quadro, quadrado fincado em meio ao mapa: a capital federal —  a moderna Brasília.”  

Tomás Toledo, sócio-fundador da Galatea, destaca alguns aspectos fundamentais da mostra:

“Galeno é um artista que trabalha muito com o universo da cultura popular, dos artesãos, dos  brinquedos manufaturados, dos objetos do cotidiano de quando era criança — como a lamparina de  querosene —, das pinturas presentes em feiras de rua, além de beber de uma geometria vernacular  também explorada por artistas como Montez Magno, que mostramos recentemente. A sua pintura  é tanto lírica quanto organizada pelo rigor construvista e pela geometria da arte popular nordestina.”

Bahia afrofuturista: Bauer Sá e Gilberto Filho marca a estreia dos artistas baianos em São Paulo em  uma individual que conta com dois núcleos expositivos distintos: no primeiro, um conjunto de 30  fotografias de Bauer Sá, produzidas entre os anos 1990 e 2000, que exploram a ancestralidade afro brasileira por meio de temáticas raciais e divindades africanas; no segundo, a primeira exposição individual de Gilberto Filho, apresentando esculturas em madeira que datam desde 1992 até o  presente e retratam cidades utópicas e modernas nascidas da imaginação do artista.

A mostra, que conta com curadoria de Tomás Toledo e Alana Silveira, esteve em cartaz na Galatea  Salvador, no período de julho a setembro de 2024. Tanto Bauer Sá quanto Gilberto Filho também  fizeram parte da exposição Cais, que inaugurou a sede em Salvador.

O texto crítico é assinado pelo artista e curador Ayrson Heráclito, reconhecido por seu trabalho que  aborda a cultura afro-brasileira e suas conexões históricas, e pelo escritor e historiador Beto  Heráclito. Eles destacam que os trabalhos de Bauer e Gilberto, de naturezas distintas, dão a ver  diferentes facetas do conceito de afrofuturismo:

“A exposição Bahia Afrofuturista: Bauer Sá e  Gilberto Filho, ao promover o diálogo entre dois artistas negros com poéticas distintas, busca  apresentar diferentes abordagens dessa nova estética, comprometida com o ativismo negro. As  linguagens eleitas pelos artistas — a fotografia e a escultura — servem como estratégia para  experimentação de conceitos como a corporeidade e a espacialidade em perspectiva afirmativa e  afrocentrada”.

Tomás Toledo, comenta, ainda, que a abertura da individual de Francisco Galeno e a itinerância da  exposição Bahia afrofuturista: Bauer Sá e Gilberto Filho em São Paulo refletem um dos pilares do  programa da galeria:

“As duas exposições que abrirão neste mês na Galatea em São Paulo, a do  Galeno e a Bahia afrofuturista, são desdobramentos da chegada da Galatea em Salvador,  fomentando o trânsito de conhecimentos, práticas, vozes e artistas do Nordeste para o Sudeste a  partir das pesquisas desenvolvidas na capital baiana.”

Sobre Francisco Galeno  

Francisco Galeno (Parnaíba, PI, 1957) nasceu na região do Delta do Parnaíba, no Piauí. Em 1965,  desembarcou com a família em Brasília, após seu pai começar a trabalhar na empresa de engenharia  e construção Serveng Civilsan. Em 1969, se instalaram em Brazlândia, cidade nos arredores da capital  federal, onde Galeno se iniciou enquanto artista e mantém ateliê até hoje. O talento para a arte foi  transmitido de geração em geração na sua família, que era composta por artesãos. O bisavô era  mestre carpina, nome dado a quem produz canoas, e o avô, vaqueiro, produzia peças de couro, como  gibão, arreios e selas para montaria. A mãe era costureira e rendeira e seu pai foi pescador e fabricava  canoas.

Desde muito jovem Galeno se interessou pela expressão artística, estudando música e teatro antes  de se concentrar no campo das artes visuais, começando pela pintura e expandido para obras  tridimensionais. Em 1977, frequentou o ateliê-escola do pintor Moreira Azevedo, artista português  radicado em Brasília. Em 1978, realizou um curso livre de pintura com Maria Pacca, no Centro de  Criatividade da Fundação Cultural do DF, sob a direção de Luiz Áquila. Mas, para além dos estudos  formais, o artista reivindica o aprendizado adivindo do contato com os artesãos que o cercavam, com  a paisagem e os objetos da sua infância, e com a cidade de Brasília. Foi essa mescla que possibilitou  o alcance de uma autenticidade no seu trabalho: carretéis, anzóis, pipas e latas de sardinha ora são depurados em linhas e formas geométricas para entrar na sua pintura, ora são apropriados em sua  condição de objeto, sendo rearranjados de forma lírica e lúdica para compor uma obra escultórica.

Desde 2012, Francisco Galeno mantém residência e ateliê em Paranaíba, dividindo-se entre sua  cidade natal e Brazlândia. Produzindo continuamente há mais de quatro décadas, em seu currículo  somam-se exposições nacionais e internacionais, tais como: Brasília, a arte da democracia (Coletiva,  FGV Arte, Rio de Janeiro, 2024); Galeno, uma nova direção – Estripulias (Individual, Museu Nacional  dos Correios, Brasília, 2014); Monumental — Arte na Marina da Glória (Coletiva, Rio de Janeiro,  2016); Francisco Galeno (Individual, Galerie Debret, Paris, 2002); Viva Brasil Viva (Coletiva, Liljevalchs  Konsthall, Estocolmo, 1991); entre outras. Em 2009, Galeno finalizou, a convite do IPHAN, o painel  que ocupa o altar da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, em Brasília, onde outrora houve uma pintura  de Volpi apagada pelo militares na década de 1960. Suas obras fazem parte de diversas coleções  permanentes, tais como: Museu de Arte de Brasília — MAB, Brasília; Palácio do Itamaraty, Brasília;  Museu de Arte Contemporânea — MAC Niterói, Rio de Janeiro; Museu Nacional de Belas Artes —  MNBA, Rio de Janeiro.

Sobre Bauer Sá
Retrato de Bauer Sá, divulgação da mostra “Bahia Afrofuturista: Bauer Sá e Gilberto Filho”, uma cortesia da Galatea.

Bauer Sá nasceu em Salvador, em 1950, cidade em que vive e toma como laboratório de criação para  sua produção em fotografia. Formou-se artisticamente a partir da convivência com o seu pai,  Armando Sá — um grande pioneiro da fotografia negra baiana —, e dos mais de 10 anos em que  trabalhou em seu estúdio e laboratório, exercitando tanto o olhar quanto a prática da revelação  fotográfica. Desde 1975, atua como fotógrafo documental e jornalístico, colaborando com veículos  nacionais e internacionais. Seu trabalho autoral, com uma assinatura estética bastante singular, é  uma das grandes facetas da fotografia baiana contemporânea e figura em acervos como: Coleção  Pirelli/MASP de Fotografia, Museu Afro Brasil, Museu da Fotografia Fortaleza, Museu de Arte  Moderna da Bahia e Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira.

As fotografias de Bauer Sá são composições conceituais e poéticas que articulam em imagens a  ancestralidade e a cultura afro-brasileira, com grande enfoque para as divindades africanas e para  temas sociais incontornáveis entre as populações negras, como o racismo. São imagens  meticulosamente construídas e moldadas por meio de cenas ensaiadas e dirigidas em que ora um  homem, ora uma mulher, sempre negros, interagem com objetos e elementos da natureza,  comunicando-se com o espectador por meio de olhares e poses dramatizadas pela luz e sombra da  fotografia analógica branca e preta.

Entre as exposições que participou, destacam-se: 17º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo  Horizonte (1985, Belo Horizonte); Os Herdeiros da Noite: fragmentos do imaginário negro  (Pinacoteca de São Paulo, São Paulo, 1994; Espaço Cultural 508 Sul, Brasília, 1995); A Hidden View:  Images of Bahia, Brazil (Concourse Gallery – Barbican Centre, Londres, 1994); Novas Travessias: New  Directions in Brazilian Photography (The Photographer’s Gallery, Londres, 1996); Brasil + 500 —  Mostra do Redescobrimento. Negro de Corpo e Alma. (Fundação Bienal, São Paulo, 2000; Casa  França-Brasil, Rio de Janeiro, 2000); Réplica e Rebeldia: Artistas de Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique (Museu Nacional de Arte de Maputo, Maputo, Moçambique, 2006; Centro Cultural  Português, Luanda, Angola, 2006; Museu de Arte Moderna da Bahia — MAM Bahia, Salvador, 2006;  Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro — Mam Rio, Rio de Janeiro, 2006; Centro Cultural Banco  do Brasil — CCBB Brasília, Brasília, 2007; Palácio Cultura Ildo Lobo, Praia, Cabo Verde, 2007); Coleção  Pirelli/MASP de Fotografia – 18ª edição (Museu de Arte de São Paulo — MASP, São Paulo, 2010), Axé  Bahia: The Power Of Art In An Afro-Brazilian Metropolis (The Fowler Museum, Los Angeles, USA,  2018), Histórias afro-atlânticas (Museu de Arte de São Paulo — MASP, São Paulo, 2018), entre outras.  Sua obra faz parte de diversas coleções permanentes, tais como: Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira — MUNCAB, Salvador; Museu de Arte Moderna da Bahia — MAM Bahia, Salvador; Museu  Afro Brasil, São Paul; Coleção Pireli/MASP, São Paulo; Museu da Fotografia, Fortaleza. 

 

Sobre Gilberto Filho  
Retrato de Gilberto Filho, para a mostra “Bahia Afrofuturista: Bauer Sá e Gilberto Filho”, uma cortesia da Galatea.

Nascido na cidade de Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, em 12 de novembro de 1953, Gilberto Dias  Barbosa Filho é filho de Elza Oliveira Barbosa e Gilberto Dias Barbosa. A sua mãe trabalhava na  fabricação de charutos, enquanto seu pai era marceneiro. Ele é casado com Zilma Nascimento  Pessoa, professora; a filha do casal, Jamile Pessoa Barbosa, também é professora.  

Gilberto comumente utiliza em suas esculturas madeiras como pau d’arco, sucupira, angelim e louro,  que são cortadas, entalhadas e montadas, com o auxílio de formões, serrotes e martelos. Os blocos  resultantes harmonizam formas, cores e tamanhos que chegam a 2,5 m de altura.  

Para o escultor, “a madeira conduz o processo de criação, ela revela como a obra será realizada, é  um gatilho para desenvolver a criatividade.” Ele faz questão de enfatizar o papel da imaginação na  construção de sua arte: “Não faço cópias de prédios, mas utilizo a imaginação e a beleza da madeira  para esculpir as minhas peças”. Diz também que seu processo é lento, dura meses até finalizar uma  escultura (Entrevista, 9 mar. 2022).  

Sobre a Galatea

Sob o comando dos sócios Antonia Bergamin, Conrado Mesquita e Tomás Toledo, a Galatea conta  com dois espaços vizinhos na cidade de São Paulo: a unidade localizada na Rua Oscar Freire, 379 e a  nova unidade localizada na Rua Padre João Manoel, 808. A galeria também tem uma sede em  Salvador, na Rua Chile, 22, no centro histórico da capital baiana.  

A Galatea surge a partir das diferentes e complementares trajetórias e vivências de seus sócios fundadores: Antonia Bergamin, que foi sócia-diretora de uma galeria de grande porte em São Paulo;  Conrado Mesquita, marchand e colecionador especializado em descobrir grandes obras em lugares  improváveis; e Tomás Toledo, curador que contribuiu para a histórica renovação institucional do  MASP, saindo em 2022 como curador-chefe.  

Com foco na arte brasileira moderna e contemporânea, trabalha e comercializa tanto nomes  consagrados do cenário artístico nacional quanto novos talentos da arte contemporânea, além de  promover o resgate de artistas históricos. Idealizada com o propósito de valorizar as relações que dão vida à arte, a galeria surge no mercado para reinventar e aprofundar as conexões entre artistas,  galeristas e colecionadores. 


Serviço — Exposição: Francisco Galeno: o Piauí é aqui — o Piauí não é aqui, na Galatea, Rua Oscar Freire, 379, Jardins, São Paulo – SP. Abertura: 12 de novembro | 18h às 21h. Período expositivo: 12 de novembro a 25 de janeiro de 2025. Horário de funcionamento: Segunda à quinta das 10h às 19h | Sexta das 10h às 18h | Sábado das  11h às 17h. Mais informações: www.galatea.art

ServiçoExposição: Bahia Afrofuturista: Bauer Sá e Gilberto Filho, na Galatea, Rua Padre João Manuel, 808, Jardins, São Paulo – SP. Abertura: 27 de novembro. Período expositivo: 27 de novembro a 25 de janeiro de 2025. Horário de funcionamento: Segunda à quinta das 10h às 19h | Sexta das 10h às 18h | Sábado das  11h às 17h. Mais informações: www.galatea.art

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